O sociólogo Mário Bacelar Begonha publicou hoje, no DN, um artigo de opinião O “valor” da nacionalidade. Não podia estar mais de acordo com ele e resumo o seu texto com a citação escolhida pelo DN para ilustrar o artigo – «Não se ‘compra’ a nacionalidade como se compram batatas».
O “valor” da nacionalidade
Ensinava-se na OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação) que a soberania residia na Nação e que esta era o conjunto dos cidadãos. Renan vai mais longe e explica melhor, dizendo que «Nação é um conjunto de pessoas com um passado comum, com um presente comum e com aspirações comuns para o futuro». Malraux acrescentou-lhe com uma comunidade de sonhos para o futuro»»…
Ora, parece que é um valor inestimável, a nacionalidade, motivo de orgulho e de honra, mas são certamente “estados de alma” que só são possíveis para quem foi imbuído da cultura da Nação, desde tenra idade e que por isso está disposto a fazer sacrifícios, se para tanto for necessário, como defender o País contra qualquer invasor, para além de qualquer serviço cívico, inclusive, o desempenho de cargos políticos, por isso mesmo mal remunerados.
Para quem entende a nacionalidade como uma “coisa” quase sagrada, torna-se difícil compreender e aceitar, que seja susceptível de ser traficada num “mercado” e que alguém possa vir a lucrar nesses negócio, como intermediário.
Mas… fontes da Polícia Judiciária publicadas em jornais diários têm desmascarado “redes” que se dedicam a esse “negócio”…
Só que não nos parece assunto que possa ser discutido por uma instituição de utilidade pública, como é uma federação desportiva, e muito menos que façam diligências nesse sentido, mesmo partindo do princípio, óbvio, de que não terão qualquer vantagem material com o assunto.
Sabemos que há regras para a atribuição da nacionalidade, mas também pensamos que existem (ou deveriam existir) regras para a retirar a quem, publicamente, a renega ou repudia ou que demonstra, por palavras e acros, não a merecer.
Seria bom que a Federação Portuguesa de Futebol tivesse em atenção e tentasse uma exegese acerca das recentes palavras de José Mourinho referindo-se a jogadores de futebol “nacionalizados” na selecção portuguesa, caso ele fosse seleccionador.
Só demonstra que de facto”ele” é um português de “gema”, ou seja, “o que há de mais puro e genuíno”, isto à letra. E é de facto assim que terá de ser no futuro, sob pena de perdermos a nossa identidade e, por último, o que nos resta da nossa dignidade, que não pode estar “à venda” mesmo que fosse para corrigir o deficit da dívida.
Compreendemos que a culpa das afirmações de Deco (jogador de futebol) não lhe pode ser atribuída na totalidade, já que há pessoas mais responsáveis, portadores de cultura superior e com estatuto, que de facto facilitaram, embora com um objectivo nobre, colocar a selecção a ganhar.
Mas para tudo na vida há limites e não se pode ir ao mercado “comprar” a nacionalidade, como se compram batatas.
Deco fez questão de dizer, no estrangeiro, e por estar interessado em regressar ao Brasil, que «agradecia muito a Portugal o que fez por ele, mas que ele era brasileiro».E como tal se afirma publicamente. Ora, só esperamos que lhe seja retirada a nacionalidade portuguesa já que ele não “precisa” dela.
E seria bom, no futuro, que certos dirigentes desportivos tivessem em conta que uma selecção nacional não pode ser uma concentração de mercenários que só querem ser portugueses como porta de entrada na Comunidade Europeia.
No fundo é uma geopolítica desportiva das necessidades, do que se trata. Mas leiam primeiro «… a Fome», de Josué de Castro, para perceberem o contexto destas palavras. «Antes sofria-se, matava-se e morria-se para salvar a alma. Hoje, o homem sofre e faz sofrer, mata e morre, realiza coisas magníficas e coisas horrenda, apenas pêra salvar a pele» (Curzio Malaparte).
Mas não à custa de uma nacionalidade. Com isso não se brinca.
This entry was posted
on Wednesday, April 14th, 2010 at 9:00 pm and is filed under Artigos, Federações Desportivas.
You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed.
You can skip to the end and leave a response. Pinging is currently not allowed.